Sexta-Feira, 3 de Setembro de 2010
Legado Olímpico de Atenas são Ruínas que Irritam Gregos
Publicado: 18/06/2010 | Por: Zwela Angola | Em: Desporto, Europa, Finanças, Jogos Olímpicos, Negócios | Lido 179 Vezes

Foto: O ginásio Galatsi, para ginástica rítmica e tênis de mesa, é um dos locais de prova abandonados em Atenas pós-2004 (WSJ)
Georges Kalaras costumava ver com orgulho o centro esportivo construído aqui, perto de sua casa, para as competições de ginástica rítmica e tênis de mesa durante os Jogos Olímpicos de 2004. Agora, ele fica bravo toda a vez que passa por ele.
"Veja, está trancado!", gritou Kalaras, de 38 anos, que trabalha para a companhia de saneamento da cidade. Dois cachorros de rua que se enfrentavam atrás da cerca de metal fechada por um cadeado representavam a única atividade dentro do complexo, com capacidade para 5.200 espectadores.
Kalaras acha que o centro de vidro e aço, que custou US$ 62 milhões aos contribuintes, poderia oferecer mais espaço para recreação no bairro. Autoridades pensaram em shows e até em lojas.
Em vez disso, quando a tocha olímpica se apagou depois da Olimpíada de Atenas, há seis anos, as portas se fecharam neste local, assim como em outros 30 instalações construídas ou renovadas para os Jogos Olímpicos naquele verão.
Os locais vazios, muitos dos quais dominam áreas renovadas da costa do mar Egeu, se tornaram as mais visíveis lembranças da era de gastos excessivos da Grécia. Eles vão de um estádio vazio de softbol e área para a prova de caiaque até um estádio de praia para voleibol e uma marina para vela.
Enquanto o país tenta lidar com os escombros financeiros causados pela enorme dívida pública, que fez tremer o sistema financeiro global nos últimos meses, os Jogos de Atenas estão, mais uma vez, unindo esta nação — mas, agora, como um alvo de críticas. Eles custaram entre US$ 7,4 bilhões e US$ 14 bilhões, pouco diante da dívida pública de mais de US$ 370 bilhões, mas isso não reduz o ressentimento.
"Os Jogos Olímpicos voltaram às conversas", diz Yiannis Pyrgiotis, que comanda a agência estatal encarregada de encontrar formas rentáveis para usar as construções. "Elas são como uma bola em campo e todo mundo está chutando."
Mesmo os entusiastas da Olímpiada estão começando a mudar de opinião.
George Tziralis, um investidor do setor de tecnologia, foi co-autor de um relatório elogioso, em 2007, declarando que as construções estavam "melhorando muito a qualidade de vida dos moradores daquelas áreas, oferecendo recursos valiosos para a comunidade e para a economia".
Numa tarde recente, olhando para uma pilha de tijolos na entrada não terminada, atrás da cerca que circunda a marina olímpica de navegação, ele se mostrou menos animado.
"Eu espero que você esteja intitulando este artigo como 'A tolice das olimpíadas'", disse ele. Barcos ocupavam cerca de um terço das 120 docas da marina, que continua fechada para pessoas que não têm barcos.
Mais tarde, Tziralis, de 28 anos, gesticulou fora da janela do seu Opel Corsa em um complexo enorme, e também trancado, reunindo em sua maioria áreas olímpicas desocupadas, onde ficava o antigo aeroporto da cidade.
"Não dá para explicar que não haja um parque aqui, seis anos depois dos jogos!", gritou ele.
Aquele complexo, que custou US$ 213 milhões aos contribuintes, inclui estádios para hóquei sobre a grama, softbol e beisebol — esportes com poucos ou sem praticantes na Grécia. O local para provas de canoagem e caiaque deveria se tornar um parque de diversões aquático. Mas isso não aconteceu.
As autoridades que organizaram e administraram os jogos acham que a súbita onda de críticas à Olimpíada não é justa.
Eles também lembram que Atenas não está sozinha: Pequim ainda não sabe o que fazer com com o enorme estádio construído para os jogos, chamado de Ninho do Pássaro.
"É fácil culpar a Olimpíada, já que ela não pode se defender", disse Spyros Capralos, que foi secretário-geral dos jogos e ocupou vários cargos de liderança nos comitês de candidatura e organização.
O maior problema, concordam ele e outros, foi a construção de um grande número de estruturas permanentes.
Como a Grécia estava atrasada com os preparativos — o Comitê Olímpico Internacional de 2000 advertiu o país para se apressar — o foco foram os jogos, e não o que viria depois deles.
Dada a pressão contra o tempo, era mais fácil e algumas vezes mais rápido, embora mais caro, construir estruturas permanentes, ao invés de temporárias.
Em muitos casos, não houve tempo suficiente para realizar o processo de licitação, o que elevou ainda mais os gastos. Ninguém pensou nos custos de operar as áreas depois dos jogos, diz Capralos
As organizações esportivas nacionais também incentivaram as estruturas permanentes, acreditando que elas motivariam a participação nesses esportes depois dos jogos. Com exceção do remo, isso não aconteceu.
"Os gregros gostam de esportes, mas eles gostam mais de fumar", explicou Georgios Kasselakis, de 24 anos, numa tarde recente em um dos inúmeros cafés a céu aberto da cidade.
O COI afirmou que vai levar mais em consideração os planos pós-olímpicos quando escolher uma cidade-sede, mas poucos acreditam que isso mude alguma coisa. O Rio praticamente não tinha áreas construídas quando foi escolhido no ano passado para sediar a Olímpiada de 2016, mas o COI "queria os jogos na América do Sul", diz David Wallechinsky, um historiador olímpico.
Capralos, que hoje é presidente do conselho da Bolsa de Valores de Atenas, assim como presidente do Comitê Olímpico Grego, alega que as pessoas se esqueceram da enorme melhora da infraestrutura da cidade, que incluiu a reforma e expansão do metrô e da malha de trens e a criação de importantes novas vias. Essas melhorias, que responderam por mais da metade do custo total associado aos jogos, reduziram os congestionamentos no notório trânsito da cidade.
E alguns dos estabelecimentos estão sendo usados, especialmente os que foram renovados, como os dos populares times de basquete do país. O novo estádio de badminton é agora um teatro, que recentemente exibiu o musical da Broaway "Evita".
Mas os infortúnios fiscais ofuscam esses sucessos. Uma série de estimativas, que variam de acordo com os projetos de infraestrutura que incluem, ecoam as incertezas contábeis em torno do déficit público.
Pyrgiotis, que comanda a agência que acompanha os uso das áreas, estima que os locais das provas causam prejuízos de cerca de US$ 12,3 milhões por ano. A maioria dos comerciantes que alugaram espaços não tem condições de pagar por eles.
Em seu escritório atulhado, ele olha para fotos em molduras penduradas na parede mostrando mulheres gregas em túnicas brancas acendendo a tocha para iniciar os jogos de 2004. Ele se impressiona com quanto mudou de lá para cá.
"Talvez seja cultural", disse Pyrgiotis, que tem vários diplomas de arquitetura e planejamento urbano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, conhecido pela sigla MIT. "Nossas atitudes nos conduziram a essas situações difíceis, das quais tentamos nos desembaraçar."
Fonte: The Wall Street Journal

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